2 de agosto de 2016

Sobre “o médico que debochou do paciente”: a discussão é sobre o que mesmo?

Mamis e eu fomos ao médico ontem à noite e, a propósito dessa ida, ela me interpelou num determinado momento do percurso: “Cê viu aquele médico que esnobou o paciente que falou ‘pneumonia’ errado?”.

Disponível em http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2016/07/medico-debocha-de-paciente-na-internet-nao-existe-peleumonia.html. Acesso em: 2 ago. 2016.

Bem, digamos que eu tenha ficado sabendo. Respondi “sim” e, sem prever que a minha mãe pretendesse discutir a questão, fui surpreendida pelo seu comentário: “É... Não é que a gente fale certo, mas não dá pra humilhar alguém só porque essa pessoa fala errado, né? Cê num acha?”.

O “cê num acha?” da minha mãe mobilizou-me para uma reflexão a que eu ainda não tinha me proposto para esse caso, mas que compartilho com quem possa interessar – e sem qualquer pretensão.

Resumindo antes de avançar: a polêmica em torno do acontecimento não se trata da ordem do “o que”, mas sim da ordem do “como”. Ou melhor: não se trata necessariamente de uma questão do que foi dito, mas de quem disse – e, nesta conjuntura, a importância tanto recai sobre o médico quanto sobre o paciente.

Vejamos: entre outras funções associadas à escrita, atuo como revisora de textos. Isso significa que, na prática, “corrijo erros”, “conserto-os”, “reescrevo-os”. Não raro, deparo-me com algum interlocutor que, em alguma hora do dia, indaga-me: “Como é que se fala...?”, “Como se escreve...?”, “Está certo se eu disser...?”. Para quem está de fora, é como se eu contivesse um amplo dicionário associado a um manual de “certo x errado” guardado em minha mente, e a expectativa é quase sempre tão grande que, quando simplesmente sinalizo que não sei, logo ouço uma voz (ou leio uma mensagem) cujo tom sai entre “meio decepcionado” e ao mesmo tempo “acusativo”: “Mas como?!? Você é redatora (ou revisora, ou linguista ou o raio que me parta) e não sabe?!?”. Pois é. Sei não.

Registro isso porque, no exercício do meu trabalho, sou interpelada não apenas por pessoas que querem obter informações, mas que também desejam revelar de si mesmas qual o seu “nível de conhecimento linguístico” (e, aqui, leia-se “o seu nível de conhecimento de regras de ortografia e de gramática”). Assim, não raro, sou informada sobre as (supostas) gafes que fulano e ciclano teriam cometido, sou marcada em publicações nas quais se condenam os usos (falados ou escritos) de termos ou expressões que não se adequam à norma-padrão da língua, recebo e-mails nos quais leio apreciações jocosas acerca de “redações-pérolas” do ENEM, bem como de redações e testes de ortografias provindos de candidatos a vagas de empregos, entre muitos outros materiais. E "pasmem", meus caros amigos: a esmagadora maioria desses conteúdos não chega até os meus contatos por meio da minha amiga revisora, com a qual normalmente troco figurinhas. A maioria chega, sim, por meio de pessoas comuns, que amo e que não amo, que concluíram e que não concluíram um curso de ensino superior, que falam e escrevem “certinho” na maior parte do tempo e que não falam e não escrevem “certinho” na maior parte do tempo.

Mais recentemente, fiquei estarrecida quando recebi um vídeo de uma moça aos berros na frente da câmera, parecendo estar à beira de um colapso, mas que na verdade estava somente assumindo a “defesa” da língua portuguesa (como se a língua, coitada, fosse uma “instituição” que realmente precisasse ser “defendida”). Particularmente, achei o vídeo medonho (a começar pelo fato de que tenho aversão a gente gritando – à exceção daqueles que, obviamente, estejam pedindo socorro). Mas eu que guardasse a minha opinião para mim, pois o referido vídeo já tinha sido assistido por milhares de pessoas e compartilhado(/endossado) não sei quantas outras milhares de vezes. A população on-line lá estava reunida com o dedo em riste, apontando aqueles que “falavam errado”, a pretexto de preservar o bom português.

Qual o problema disso?

Nenhum. Até porque, como eu disse, revisão de textos é uma das minhas atuações profissionais. No mais, eu acrescentaria que, “de professor de português e de louco, todo mundo tem um pouco”, de modo que passei a ver com certa “naturalidade” o fato de as pessoas “se corrigirem”. Papai, por exemplo, fala “salCHicha” e “pra MIM fazer”, ao passo que mamis tem uma dificuldade enorme para falar “óbvio”. E, cada vez que mamãe diz “É óvio”, papai a corrige, dizendo “Não é assim que se fala”. Mas papai não acha estranho que mamãe diga “agrotóCHico” em vez de “agrotóCSico”, porque ambos falam assim. E eu acho o máximo, porque a maneira como eles se expressam diz muito sobre quem eles são e, portanto, sobre suas histórias de vida. Acho gracioso que minha mãe olhe pra mim e diga “Fulano pensa que está me ‘dIBRAndo’”, porque essa é uma marca dela, e de mais ninguém que conheço.

Bem, o que quero dizer com isso é: embora todo mundo “se corrija” em maior ou menor grau, existem pessoas que ocupam uma posição que lhes confere uma “autoridade maior” para que essas correções (ou até “exposições”) sejam feitas publicamente. Assim, o(a) humorista que sofre chiliques com os (supostos) “erros” cometidos pelos falantes da língua teria “licença” para fazê-lo em função do papel que desempenha, tal como uma professora de português que publique “certo x errado” na sua página da rede social e o jornalista que satiriza as piores redações de um concurso. Contudo, ainda que não desfrutem essa "autoridade", também estará “tudo bem” se isso ocorrer entre grupos de profissionais, grupos de amigos ou grupos de parentes entre os quais as “piadas”, as “tiradas” e/ou as críticas "se justificam", endossadas pelo coletivo. No caso do médico que gerou polêmica, porém, eu me aventuraria a dizer que o “problema” foi a “tirada” ter se estendido para além do seu agrupamento, ganhando uma visibilidade que ele não foi capaz de prever. Foi aí que o que inicialmente seria uma “brincadeira” (que, até onde sei, estava sendo endossada por colegas do seu coletivo de trabalho) transformou-se em “deboche”.

Insisto: não se pode refletir a respeito dessa polêmica sob a perspectiva exclusiva da linguagem, dispensando um olhar que contemple o contexto no qual ela se desenrola e uma observação "menos superficial" a respeito dos seus personagens.

Se fosse para resumir a porção de comentários revoltosos que li abaixo das chamadas de algumas matérias, eu evidenciaria o fato de que, de “médico”, o rapaz que aparece na foto foi rebaixado a “playbozinho arrogante e sem noção”, com todo o juízo de valores que pode ser associado a essa imagem. Logo, por trás da aparente problemática da linguagem, sobressai um embate de natureza ideológica e inquestionavelmente social: de um lado, o paciente humilde (não escolarizado) que necessita de um atendimento público; de outro, o “playboyzinho” formado em Medicina (condição a que poucos têm acesso) que se sentiria no direito de desqualificar aquele que por si só já se encontraria numa posição desfavorecida. Em outras palavras: para além da correção sobre a “fala errada”, os ânimos se exaltaram pela “condição errada” de injustiça social (em oposição ao que se delinearia como sendo “toda uma sorte de privilégios) que cada um desses personagens representaria em si mesmo.

Vejamos de outro modo: vamos supor que o jovem médico fosse procurado pelo mesmo paciente humilde e que, ao preencher o atestado, o profissional justificasse a ausência do paciente como “peleumonia”. Agora, imaginemos que, surpreso com aquele registro e em o achando “engraçado”, o paciente tivesse a ideia de chegar em casa e tirar uma foto do atestado, publicando-o em sua página do Facebook, acompanhado da seguinte mensagem: “Seu doutor, o sinhor pode ser medico, mais num existe peleumonia, viu?”

Como você acredita que essa publicação teria viralizado?

Para a minha mente fértil, é certo que o médico teria virado motivo de chacota. Todos estariam estupefatos com um médico (gente, “um médico!!!”) que escrevesse “peleumonia”, e não faltariam memes na rede perguntando se esta seria uma nova doença, tampouco informações sobre em quais escolas e universidade esse médico estudou. Voluntários a “professores de português” despontariam em todas as áreas. E, durante toda a semana, os principais veículos de notícia estariam discutindo a “péssima qualidade da educação no País”. Especialistas seriam convidados a explicar – à exaustão – a precariedade do ensino, capaz de formar médicos (gente, “médicos!!!”) que, não bastasse escreverem de modo quase sempre ilegível, ainda “escreveriam errado”!

Quanto ao paciente, suponho que ele seria convidado a ter os seus quinze minutos de fama em entrevistas nas quais os jornalistas lhe perguntariam: “Mas o que o senhor pensou quando pegou o atestado e viu que estava escrito ‘peleumonia’?”. E ele poderia responder: “Ah, num deu pra acreditá, né? Um doutor escrevendo assim não dá pra acreditá...”.



Disponível em http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI110515-17774,00-O+PRECONCEITO+LINGUISTICO+DEVERIA+SER+CRIME.html. Acesso em: 2 ago. 2016.
“Peleumonia” (e “raôxis”) à parte, novamente o “evento” não seria “da língua”, mas da posição de cada interlocutor. Dificilmente se aventaria que o paciente teria “debochado” do médico, porque, de repente, “todos seriam o paciente”, ao passo que o médico estaria praticamente fadado a ser reconhecido como “o médico da peleumonia” – ou, ao menos, enquanto a memória virtual assim o permitisse.

Para encerrar: em tempos de “caça às bruxas” no mundo on-line, é preciso deixar claro que não conheço nem o médico nem o paciente dessa ocorrência, que não estou “defendendo” um ou outro e que, sinceramente, não tenho um “certo” ou “errado” que me recuse a assumir abertamente. Minha posição está clara: para além do aspecto linguístico, é preciso considerar o contexto sócio-histórico e suas implicações. De outro modo, nós mesmos estaremos apenas reproduzindo mais do mesmo. ;)

Iara Mola
2 de agosto

21 de abril de 2016

Impeachment e Produção de Conteúdo: 6 lições dos deputados sobre o que NÃO fazer numa redação

Se você assistiu à votação do impeachment nesse penúltimo domingo, no qual nada menos do que 510 deputados se posicionaram favorável ou contrariamente ao andamento do processo de impedimento de Dilma Rousseff, há de concordar comigo que, à parte se tratar de um daqueles eventos “intermináveis” (chegava o feriado de 1º de Maio, mas a tal da votação não terminava nunca!), o fato é que dia 17 de abril de 2016 foi mesmo uma data histórica, não é mesmo? 

E olha que “história” não faltou para os nossos ouvidos atentos, principalmente a contar pelas exaltadas narrativas dos parlamentares que, embora devessem se manifestar em até dez segundos, cuidaram de se estender por quase um minuto (alguns mais, outros menos). Acontece que os nossos deputados estavam tão convencidos de suas defesas que, para justificá-las, sentiram-se na necessidade de compartilhar conosco uma “síntese” da sua própria vida. E, para tanto, incluíram aí o município onde nasceram e/ou que representam, as suas frases de efeito preferidas, os seus conhecimentos em História e Geografia, a fé que professam, a mulher com quem se casaram, quantos filhos e netos tiveram e, claro, o nome de cada um destes, haja vista a importância dessas informações para a votação em questão e para a população brasileira (#SQN).

Sem nos determos, porém, no resultado da votação e em tantos outros curiosos apontamentos que a espetacularização dessa semana certamente nos renderia, a verdade é que, sem que se propusessem a isso, os deputados nos deram (gratuitamente!) um curso intensivo sobre produção de conteúdo, sobretudo no que diz respeito à criação de textos para o nosso público-alvo!

Duvida?!?

Bem, só para “início de conversa”, eles prestaram um serviço de inestimável valor aos redatores que empenham os seus melhores esforços em produzir diferentes gêneros textuais em nome de pessoas físicas e jurídicas.

“Como assim?”

Ora... Simples! Consideremos o seguinte: os deputados que no referido domingo nos “surpreenderam” com as suas melhores condutas (fosse “empurrando o coleguinha”, fosse esbravejando, ora “mandando um alô pra família”, ora invocando a misericórdia divina) são, segundo se supõe, a personificação das nossas melhores escolhas nas urnas, correto? Ou, em termos mais resumidos: eles são, simplesmente, as figuras (e que figuras!) que escolhemos para nos representar. E o que é um redator, se não um especialista da palavra que um contratante escolhe para representá-lo por meio de textos que impactem positivamente os seus leitores e/ou clientes? Uma boa redação não seria, em síntese, a representação escrita que deve “traduzir” uma ideia, um conceito, um negócio em todo o seu potencial?

Pois imagine se você, caro leitor que possui uma empresa e que tem interesse em conectar o seu público-alvo aos seus produtos/serviços por meio de artigos para o seu blogue (entre outros conteúdos possíveis), contasse com as (in)aptidões de um redator que representasse os objetivos do seu negócio do mesmo modo como os deputados representaram “o desejo da população brasileira” no dia 17 de abril!... Se você assistiu a toda a votação no Congresso, retome as suas próprias impressões e analise: o que os seus clientes (e potenciais clientes) avaliariam a seu respeito?...

Vamos supor (e apenas supor...) que você concorde comigo (ufa!) e diga a si mesmo: “É, Iara... De fato, se vou escolher quem represente as minhas ideias, seja na minha condição de cidadão ou na minha vida profissional, preciso mesmo ser um pouco mais ‘cuidadoso’”. Bem, é evidente que ficarei feliz por ter contribuído, ainda que minimamente, para o exercício dessa reflexão. Mas posso lhe assegurar que as excelentes aulas que os deputados nos deram no que tange à produção textual não pararam por aí! E, posto que o aproveitamento foi significativo, eis que me atrevi a enumerar tais lições de 1 a 6. Mas atenção: que todos os créditos sejam dados aos nossos parlamentares, aos quais agradeço por “se doarem” tão gentilmente no exercício prático acerca do que não fazer numa boa redação! :) 

Se você, como eu, também é redator/gerente de conteúdo, atenção às lições proporcionadas por esses especialistas! Se você já contratou um redator ou uma agência para estar à frente da produção de conteúdo da sua empresa, nunca é demais se inteirar de quais são ou não aquelas famosas “melhores práticas”, não é mesmo? E se você é alguém que não atua profissionalmente como redator, mas se interessa pela redação do conteúdo do seu próprio negócio e está para se lançar nessa empreitada, atenção redobrada, combinado? 

Vamos a elas:

#1. NÃO “GRITE” (MUITO MENOS “BERRE”) COM O SEU PÚBLICO-ALVO!!! ](Regrinha de ouro!)

 

SIIIIIIIIIIIIIIM!!! EM NOME DA SUA POLIDEZ, EM NOME DA ACEITAÇÃO DO USUÁRIO QUE VOCÊ CONVIDA PARA A SUA LEITURA (E QUE MUITO PROVAVELMENTE NÃO APRECIA SER MALTRATADO!), EM NOME DA BOA RELAÇÃO QUE VOCÊ PRETENDE MANTER COM ELE E, PRINCIPALMENTE, EM NOME DE TODOS OS CONTEÚDOS QUE VOCÊ ESPERA QUE ELE CURTA, QUE ELE CONSUMA, QUE ELE VIRALIZE E QUE TAMBÉM SE TRANSFORME EM MÍDIA ESPONTÂNEA PARA A SUA EMPRESA OU MARCA, VOTE POR UM TOM “AMIGÁVEL”!!! 

Agora falando sério (não que antes eu não estivesse): via de regra, opte por um “tom amigável”, com o qual o seu público mais se identifique. Isto porque, mesmo havendo diferenças bastante peculiares entre a fala e a escrita, ambas contemplam o aspecto relativo a um “tom” – aspecto este que os leitores também depreendem durante uma leitura. Não à toa, quando lemos uma mensagem toda escrita (ou parcialmente escrita) com letras maiúsculas (ou, como costumo dizer, em “letras garrafais”), somos levados a crer que o nosso interlocutor está gritando conosco, ou que está chamando a nossa atenção, ou que está sendo “grosseiro” ou nos dando uma “palavra de ordem” (lembrando que, para que sejam bem-vindas, as "palavras de ordem" também precisam estar dentro de um contexto...), entre outras possibilidades. Na maioria das vezes, a não ser que estejamos nos referindo a um panfleto ou a qualquer outro tipo de anúncio marcadamente publicitário, o excesso de “letras garrafais” não causa uma impressão positiva... 

#2. Não dê “palavras de ordem”: seja gentil!


Aproveitando o item anterior, destaquei aqui esta segunda lição no intuito de salientar que há uma diferença GRITANTE (reparou no efeito do “grito”?) entre dar uma "palavra de ordem" (a exemplo dos deputados se esgoelando ao microfone na tarde do domingo retrasado, exigindo o cumprimento daquilo que ora reivindicavam em nome da democracia, ora em nome do golpe de 64, ora pela defesa da família, ora pelo direito dos índios, ora pelo futuro dos próprios filhos, etc.) e dar uma “palavra de incentivo” (o que, aqui, não tem nada a ver com autoajuda, ok?).

Veja: se pretende incitar o seu público-alvo a alguma ação, mobilize-o dentro de um contexto. Como? Assim, tal como fiz exatamente agora, ao solicitar que, ao incitar o público a alguma ação, você o mobilize dentro de um contexto. 

Adeque os verbos no imperativo ao gênero textual/discursivo. Você está discutindo a solução de um problema? Nada mais natural do que orientar o seu leitor/cliente/potencial cliente, recomendando que ele “pense”, que “pondere”, que “estude”, que “faça”... Contudo, perceba (notou o verbo no imperativo?) que a própria contextualização nos auxilia no sentido de que essas “palavras de ordem” não assumam um efeito de agressividade. Afinal, se não gostamos nem mesmo dos nossos amorosos e dedicados pais “mandando” na nossa vida, que dirá de estranhos que nada sabem a nosso respeito, concorda?

3# Não fuja do tema – pelamordedeus!

 

Sabe que, nesse penúltimo domingo, pensei: “será que aquele deputado que (depois de já ter votado) voltou ao microfone para mandar lembranças ao filho não seria um adulto frustrado, daqueles que não superaram o fato de nunca ter comparecido ao Xou da Xuxa, na época em que a apresentadora perguntava: ‘E o seu beijo vai pra quem?’..."?

Sim, é possível. Mas o que isso tem a ver com as lições que os deputados nos deram sobre produção de conteúdo e, mais particularmente, produção de textos? Hum... Isto, precisamente, nada. Foi apenas uma divagação, como você há de ter notado. No entanto, uma divagação proposital, para alertá-lo quanto à importância de que, na sua redação, você não divague dessa maneira. Ou, ao menos, para que divague o menos possível.

 

Pergunte-se: qual o seu tema e o objetivo do seu texto? para quem você está escrevendo esse texto? o que o seu público gostaria de saber a respeito desse tema? como você pode, por exemplo, contemplar todas essas informações num único artigo para o seu blogue, sem a pretensão de esgotar todas as discussões em torno do assunto? 

De certo que, se você se focar nessas questões, já terá mais do que o suficiente para escrever. 

Além disso, ainda que o seu texto seja, assumidamente, uma completa divagação, a própria divagação segue uma linha de raciocínio que exige um mínimo de coerência. No exemplo que comecei ilustrando nesse tópico, havia, ao menos, uma associação entre a minha divagação e o objetivo deste artigo: ambos se referem à atuação dos deputados durante a votação do impeachment nesse célebre domingo. Mas essa articulação não foi exatamente o que verificamos quando tantos deputados resolveram estabelecer (a qualquer custo!) uma associação (forçada) entre os seus votos e aquilo e/ou aqueles pelos quais votavam. Por exemplo: qual a relação entre se votar a favor do processo de impedimento da presidente e a “paz em Jerusalém”?... [Hã?!?]

 

4# A menos que o tema da sua redação seja religioso (ou que o seu negócio seja uma igreja), não fique invocando o nome de Deus!

 

Pois é. Sabe o “pelamordedeus” que usei na chamada do tópico anterior? Foi apenas para criar um efeito de humor inocente. E, a não ser que você queira fazer o mesmo (ou a não ser que você esteja escrevendo sobre um tema religioso), procure "não misturar as frequências”... Se você acompanhou na internet a repercussão da votação, deve ter reparado que as solicitações de intervenção celestial, os votos justificados em nome da fé e o pedido explícito de misericórdia divina “memetizaram”, tomados, por si sós, como piadas prontas. O Estado é laico, mas o Brasil é um país religioso, e “usar o nome de Deus” e/ou de outras santidades para legitimar os próprios interesses não é, a priori, uma prática muito bem vista.  

5# Se o seu contratante ou o seu público-alvo espera que você desenvolva um tema o mais rapidamente possível, não fique criando expectativas à toa!

 

Ora, vejamos: de quanto tempo os deputados dispunham para manifestar o seu voto? De 10 segundos, no máximo. Só que, em média, cada um falou cerca de 60 segundos. E o resultado você já sabe: nada que efetivamente acrescentasse – mas tudo que, ao final, contribuiu para que a votação se arrastasse por horas e horas!

E o que isso tem a ver com a produção de textos?

Tudo.

Por quê?

Porque, tendo em vista a regra a que os deputados deveriam obedecer, os 50 segundos a mais de que cada um se valeu culminaram num “excesso” que, como todo bom excesso, foi desnecessário. À exceção de conteúdos para memes, para matérias jornalísticas e para este despretensioso artigo, o que realmente se aproveitou da esmagadora maioria daquelas centenas de explicações acaloradas? E o que você acrescenta ao seu público-alvo quando ele está interessado numa resposta objetiva sobre um tema específico e, sem se dar conta disso, você o sobrecarrega com os seus próprios achismos

“Ah, Iara, mas você não está me sobrecarregando com os seus próprios achismos?”

Não exatamente. E explico a diferença, a começar pelo título do meu artigo: já no título, subentende-se que vou tratar de um assunto subjetivo, resultante da minha própria articulação. Além disso, não escrevo para um público interessado (ou, ao menos, não necessariamente interessado) em respostas prontas, e sim no exercício da própria reflexão e do bom-senso. Os meus leitores (leitores dos artigos assinados pela Iara) sabem que, enquanto escrevo, eu mesma estou raciocinando, compartilhando com eles as melhores considerações que me ocorrem. Quando escrevo em meu próprio nome, tal como agora, desfruto essa liberdade. 

6# Não queira convencer o seu público-alvo de que tudo o que você está fazendo é apenas (e tão somente) por ele!


Sim: faça essa gentileza ao seu público-alvo e a si mesmo! Ou você acredita que pode subestimar a perspicácia dos usuários sem sofrer nenhum prejuízo, tal como os deputados se arriscaram a fazer durante o espetáculo do penúltimo domingo?

Avaliemos conjuntamente: na sua opinião, em que momento os deputados inspiraram mais “honestidade”: quando estavam votando pelas suas esposas, maridos, filhos, pelo aniversário da neta, etc., ou quando justificavam os seus votos em nome dos corretores de seguro, dos fundamentos do cristianismo, do aniversário do seu município, da república, da democracia, do Brasil?... 

Aprofundemo-nos nessa avaliação: à parte a família consanguínea e a nação brasileira, os parlamentares não estavam, na verdade, privilegiando os seus próprios interesses, conforme as negociações a que já tinham dado andamento?... Você realmente acreditaria se, na próxima campanha eleitoral, para disputar novamente o seu voto, o deputado no qual você votou na última eleição lhe dissesse que tudo o que fez no Congresso foi visando a representar os seus interesses de cidadão de bem?...

Tudo bem que você não seja político e que, muito possivelmente, esteja imbuído das melhores intenções ao redigir um artigo sobre as vantagens do seu negócio ou dos negócios do seu contratante. Ou, ainda, tudo bem que esteja mesmo imbuído das melhores intenções ao escrever um artigo sobre saúde, mercado de trabalho, cultura, marketing de conteúdo, etc., etc., etc. Acredito em você, e essa boa vontade que nos move em compartilhar um conhecimento relevante por meio de um texto de qualidade é, sem dúvida, um diferencial a ser cada vez mais incentivado. Mas não queira convencer o seu público-alvo de que a sua iniciativa se justifica única e exclusivamente pela sua generosidade acentuada. Esta pode ser uma das formas mais rápidas de despertar a desconfiança (e a resistência) daqueles de quem você tanto gostaria de se aproximar!

Sejamos transparentes: se você tem um negócio próprio e começou a produzir conteúdos acerca dele, o seu interesse não se resume, gratuita e exclusivamente, à garantia de bem-estar dos seus clientes e daqueles que podem vir a sê-lo, correto? 

Na prática, é mediante o consumo do seu conteúdo que o usuário se interessará em consumir o seu produto ou serviço, pelo qual acabará por remunerá-lo financeiramente – o que é excelente. 

Na prática, quando você atua como redator, é por meio da engenhosidade dos seus textos que o público-alvo do seu contratante o descobrirá e se interessará por um determinado produto ou serviço, de tal modo que o seu contratante se sentirá satisfeito e continuará a remunerá-lo pela sua prestação de serviço – o que também é excelente. 

Logo, a produção de um bom conteúdo implica não apenas a oferta de um bom conteúdo para o leitor-futuro consumidor, mas também a sua garantia de renda (ou, por exemplo, a sua garantia de reconhecimento como autoridade sobre um determinado assunto). E todo leitor sabe disso: ele sabe que, a menos que você seja um espírito totalmente desprendido dos bens terrenos e que se encontra encarnado neste mundo tão somente para compartilhar a própria luz interior, dificilmente se lançará a fazer alguma coisa que não contemple também os seus próprios interesses! 

Portanto, se você não gostaria de ser chamado de “hipócrita” tal como o foram os nobres deputados que tornaram ainda mais “histórico” o dia 17 de abril, atente-se a esta última lição: seja qual for o tema e o estilo da sua redação, não abra espaço para a desonestidade, para a propagação de informações advindas de fontes de pouca credibilidade e/ou até mesmo para a manipulação das informações, subestimando a perspicácia do seu público-alvo. No lugar de tentar iludi-lo com o pretexto de que ele é o único beneficiado pela sua camaradagem, deixe-o saber que vocês podem se auxiliar reciprocamente, caso haja essa necessidade. Se, mais do que simplesmente conquistar, você aspira a um leitorado/público-alvo fiel, invista na construção de uma relação de confiança e de troca. No final, os resultados serão nada menos que surpreendentes!

Iara Mola
25 de abril de 2016

13 de abril de 2016

A herança do “Cumé que pode?...” e a eterna novidade do mundo*

[...] A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

[...] E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
(Alberto Caeiro1)

Quando eu tinha 15 anos, a pretexto de conhecer os pensamentos de uma personagem com a qual – na opinião de quem me indicou tal livro – eu possuía “muitos pensamentos em comum”, li “O Mundo de Sofia” (de ), sendo esta, a seu tempo, uma daquelas obras marcantes, da qual extraí um entendimento que jamais esqueci: “ser filósofo é ter a capacidade de se admirar com as coisas”.

Anos mais tarde, tenho pensado no quanto é – no mínimo – “curioso” como tantos de nós precisamos desaprender a maior parte daquilo que já racionalizamos sobre a vida para resgatar – ainda que parcialmente – o sentido daquela curiosidade (e da surpresa!) que manifestávamos com tanta espontaneidade quando ainda éramos capazes de experimentar a eterna novidade das coisas no nosso universo infantil. E penso, igualmente, na grande sorte de poder contar com o encantamento daqueles que “resistiram” e que, embora adultos, não o perderam nunca.

Vovó foi, sem dúvida, o melhor de todos os que conheci.

Sentada no sofá azul da casa dela lá em Minas, eu passava algumas horas ouvindo as suas histórias. Vez ou outra eu me mexia, chacoalhava os pés no ar, numa reação de ansiedade, à espera do que sucederia no encerramento de cada “causo”, sendo que os meus favoritos eram justamente aqueles que, sem se lembrar de que já os tinha contado, ela repetia mais uma porção de vezes.

Por volta de 2002, vovó sentadinha na sua poltrona azul (já reformada), acompanhada da minha sobrinha Lilica, minha pequena xérox
Foi assim desde que eu me sentava direitinho no sofá e os meus pés não alcançavam o chão até o dia em que eles já o alcançavam e a minha postura já não era mais tão ereta.

Excelente contadora de histórias da sua vida, vovó aproveitava o ensejo da narrativa entre um episódio e outro para fazer os seus próprios questionamentos, que, geralmente, deixavam-me também bastante intrigada:

“— Cumé que pode, fia?... Ocê já parô pra pensá na perfeição que é um bebezinho nasceno?!?... E, agora, co’essa modernidade toda, a criança já nasce co’zóio aberto – cumé que pode uma coisa dessa, uai?!?... Ói... Procê vê a inteligência do home: cumé que pode cabê o retrato da gente dentro dessas máquina de tirá foto?!?... Isso não entra na minha cabeça, fia!... Eu fico matutano, matutano... mais o diacho num entra!... E agora, co’essas firmage, então?... Cumé que pode o home tê esse tanto de inteligência pra sabê que juntando umas peça e uns fios dá pra fazê essas invenção toda?!?... E cumé que pode, se é tão inteligente assim pra umas coisa, fazê tantas mardade em ôtras?!?...”

Apesar de eu só adquirir maturidade muito mais tarde para assimilar – isso, a minha avó era uma filósofa por essência. Alguns anos depois da partida dela para o outro plano da vida, compreendo com muito mais clareza a sua contribuição para a minha formação e para a capacidade que tenho de me admirar com as coisas do homem e do mundo, tanto positiva quanto negativamente.

Hoje, na ausência da vovó, valorizo ainda mais o gracioso “Como é que pode?...” da minha mãe – herdeira direta de certos trejeitos da personalidade da dona Francisca – e, num grau só um pouco menor (por ser menos frequente e, confesso, também por ser um tanto menos “acaipirado”), as vontades do serelepe menino de vila que existe no meu pai.

Três ou quatro domingos atrás, tendo ido almoçar com eles, ambos me convidaram a apreciar uma arte que fizeram num dos quartos do apartamento, onde remontaram uma antiga estante.

Orgulhoso, o meu pai apresentava para mim a sua velha coleção de carrinhos, que agora conta com uma pequena porção um tanto mais nova. Ele destacou, por exemplo, o simpático presente que ganhou no último Dia dos Pais – uma miniaturinha de guincho, para o qual tratou de arrumar mais alguns objetos a fim de que estes lhe fizessem “companhia” naquele improvisado cenário da estante.

Com um brilho nos olhos de menino quase às vésperas dos 64 anos de idade, sorrindo, papai tirou o bonequinho do lado do miniguincho e o estendeu até mim, dizendo: “Eu arrumei até um mecânico!”.
Na prateleira de cima: o guincho (vermelho) socorrendo o caminhãozinho amarelo da Coca-Cola (ra, ra, ra!), o mecânico de roupa azul segurando uma maleta e o moço louro preocupado, coçando a cabeça...
Ainda que muitos olhares possam, prontamente, apreender que o que está subentendido nesta leitura tem a ver com alguma espécie de “imaturidade”, acredito num prisma diferenciado – e bem mais especial. A juventude do menino que alguma vezes desponta no corpo cansado do meu velho pai reforça em mim a convicção de que a educação de um ser humano se processa de modo contínuo, e que o tempo com que isso se dá é apenas uma das muitas variáveis possíveis.

Na chamada “terceira idade”, o homem que se orgulha dos carrinhos é o mesmo que, na idade considerada própria para tal, sequer teve brinquedos. Na época, não bastasse segurar a sua caixa de ferramentas na mão direita, a mão esquerda se ocupava com outra de igual conteúdo, sobrecarregando-o com os meios necessários para dar conta da sua e de outras (sobre)vivências. E, hoje, é o senhor que, “apesar de”, pega uma das suas miniaturas, olha-a como se a visse pela primeira vez e diz:

“— Como é que pode o ser humano reproduzir um carro numa pecinha dessas, com tantos detalhes assim?...”

Já uma das “artes” da minha mãe está situada na parte de cima da estante, na qual se encontra a imagem de Nossa Senhora Aparecida num tamanho médio, cercada por santinhos de tamanhos menores. E, imediatamente à apresentação do meu pai em relação ao seu “novo” mecânico, a preocupação que ela manifestou foi: “Ai, Iara... Ontem eu falei pro papai... Será que não é uma ofensa colocar a Nossa Senhora na mesma estante em que ele coloca esses brinquedos?...”.

Apoiando-se nas pontas dos pés, mamãe pegou o seu mais novo presente, que estava do lado da imagem de Nossa Senhora: a miniatura de São Longuinho, pela qual ela está encantada. E, também com olhos de admiração, ela disse: “Olha, Iara!... Olha só! Com 60 anos é que eu vim a ver como é o São Longuinho!... Olha só essa lanterninha que ele carrega!... Agora que eu entendi: então, é por isso que ele ilumina o caminho quando a gente precisa achar alguma coisa!... Eu não sabia que ele era assim!... Como é que pode ser tão perfeitinho, né?...”.
São Longuinho da mamãe
Essa herança do “Como é que pode?...” que a minha mãe recebeu da minha avó é algo que me arranca um largo sorriso, e que espero ter herdado também. Só sei que olhei aquele São Longuinho para o qual dei tantos pulos (mamãe sempre guardou tão bem as coisas que, via de regra, quando precisa, ela não sabe onde estão) e ele realmente me pareceu bastante carismático – bem mais do que o seria se não houvesse o encantamento da minha mãe. Por conta daquela lanterna na graciosa miniatura de santo, agora as coisas faziam sentido para ela.

E não é para isso que também serve a educação? Para dar “sentido” às coisas – e o nosso próprio sentido?...

Em meados de 2004, assisti ao “Duo de Versos”, apresentado pelo poeta César Magalhães Borges e pelo músico André Mola. No encerramento daquele show realizado na Universidade de Guarulhos (UNG), César fez uma breve introdução à última música que a dupla cantaria (clique aqui para assistir ao vídeo diretamente no YouTube2) – e que me fez refletir a respeito –, dizendo as seguintes palavras:

“— Já repararam o seguinte? Muitas vezes, parece que a ciência está aí pronta para destruir os nossos encantos, para destruir as nossas lendas, para destruir as nossas crenças... aquilo que você acreditava ser a coisa mais maravilhosa do mundo!... Peguem como exemplo a Lua: a Lua sempre foi tão mágica na história da humanidade!... Até que volta de lá um astronauta e diz: ‘É só pedra!’...”



Voltada à saudade da minha avó e de tudo o que poderia ter sido – mas não foi –, ao amor cheio de apego que tenho pelos meus pais, ao conceito de filosofia no qual vejo todo o sentido, à herança do “Cumé que pode?...” e àquilo que, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, Pessoa afirma que “vê sem que nunca antes o tivesse visto”, tenho a impressão de que a percepção se amplia. Até então, alienados na tolice de um cientificismo que “explica” tudo, acreditamos menos nas coisas, desfazemos demais da magia intrínseca à simplicidade delas, crescemos em pretensão e também em vazio, destratamos pessoas sábias movidos pela pseudointeligência de que nos revestimos na total ignorância do nosso saber.

Em versos, César Magalhães Borges3, a quem tomo como referência na arte que tanto aprecio, registra em poucas palavras aquilo que eu mesma quisera um dia ter escrito, se soubesse como fazê-lo tão bem:

A psicanálise desequilibra gênios
                                             e desvela
a paranóia dos heróis.
A ciência descobre os gens
que podem gerar
pensamentos superiores.
E a cultura material
presta culto aos mortos
legendados como lendas
a quem quiser acreditar.

Conquanto tal afirmação possa “comprometer-me” (escrever é, por si só, algo que já me “compromete” deveras), recuso-me a crer que a Lua, por exemplo, seja somente um amontoado de pedras, e peço a quem se opuser que, gentilmente, deixe-me morrer com essa minha mais absoluta convicção – não é, e ponto final!

Que me chamem de “tola” por eu ver em questionamentos aparentemente “simplórios” a essência da inquietude responsável pela aquisição da sabedoria de vida e por ter nisto algo de extraordinário, digno de encantamento. Acontece que a capacidade de se admirar e de “renascer todos os dias para a eterna novidade do mundo” vai, por si só, muito além do “ordinário”, posto que é “extra”, e não qualquer coisa que se coisifique.

Socorro-me novamente dos versos com os quais o poeta se despede no seu réquiem, apropriando-me da sua própria crença, que, não por acaso, é a minha também:

Eu acredito
e credito
o sol aos vivos
que vivem na alma
o corpo da sapiência ancestral.

Este é um texto dedicado à minha avó.

Iara Mola
Setembro de 2012
*Por ocasião da palestra que realizei na última sexta-feira (8/4/2016) na Faculdade Sumaré, em que abordei o tema "redação", resolvi retomar alguns textos que produzi quando da minha atuação como redatora e revisora de textos da Forma Escrita Projeto Editorial. Aqui, compartilho o segundo artigo de uma série originalmente publicada no site da Editora, na qual tive a grata satisfação de ter uma coluna própria entre 2012 e 2013.

1 Alberto Caeiro (um dos heterônimos de Fernando Pessoa) em “O Guardador de Rebanhos: VIII – Num Meio-Dia de Fim de Primavera”. Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/guardador.htm. Acesso em www.dominiopublico.com.br.
2 Faixa da gravação inédita da música “O Moedor”, de autoria de Nílton Pasqualeto, por César Magalhães Borges e André Mola, durante apresentação na Universidade de Guarulhos (UNG) em 2004. (Em especial, agradeço ao André Mola a elaboração desse vídeo.)
3 BORGES, César Magalhães. Um Réquiem a quem não vê. In: _________________. Canto Bélico. 3. ed. São Paulo: Germinal Editora, 2003. p. 82-84.

12 de abril de 2016

O Presente da Educação do Futuro: qual o legado que vale a pena deixar?*

Via de regra, estou sempre tão imersa nas atividades relacionadas à redação que, quando não estou trabalhando, o meu trabalho continua sendo uma das minhas principais fontes de lazer. Hoje, no entanto, sentindo pesar o cansaço da correria da semana, dei-me um tempo durante a tarde para me jogar na cama e ligar a tevê, adiando por alguns instantes as tarefas com as quais me comprometera.

Sapeando determinados canais, cujo principal objetivo costuma ser a transmissão de um entretenimento descompromissado, atentei-me para a entrevista de uma apresentadora com um ator conhecido do grande público que, naquele exato momento, verbalizava a seguinte afirmação: “A minha mãe me ensinou a sorrir. Com o meu pai, eu aprendi a rir. Essa é a minha maior herança, e é exatamente ela que desejo repassar aos meus filhos.”.

Aqueles que já me conhecem sabem da minha verdadeira paixão pelas ideias do Rubem Alves acerca da Educação. E, a propósito dessa declaração do ator, que chamou minha atenção, retomei uma das passagens do Rubem de que mais gosto, quando ele escreve sobre as tarefas da Educação. Segundo ele, são duas as caixas que o nosso corpo carrega: na mão direita (“mão da destreza e do trabalho”), a caixinha de ferramentas; na mão esquerda (a “mão do coração”), a de brinquedos. Na caixa de ferramentas estão os instrumentos voltados à “melhoria do corpo”, aos “meios para viver”. Já na caixa de brinquedos, há uma porção de coisas que não servem para nada. Na definição de Rubem Alves,

[...] lá estão um livro de poemas da Cecília Meireles, a "Valsinha" de Chico Buarque, um cheiro de jasmim, um quadro de Monet, um vento no rosto, uma sonata de Mozart, o riso de uma criança, um saco de bolas de gude... Coisas inúteis. E, no entanto, elas nos fazem sorrir. E não é para isso que se educa? Para que nossos filhos saibam sorrir? [...]
Rubem Alves (Google Imagens)
À pergunta desse legítimo educador, sempre me rendo. E foi por esse motivo que a menção do ator referente àquilo que ele aprendeu com os seus pais e que pretende deixar como legado aos seus filhos trouxe-me essa associação tão imediata entre uma e outra coisa. Afinal, “não é para isso que se educa? Para que nossos filhos saibam sorrir?”...

Do início do ano pra cá, até mesmo em razão de algumas redações que precisei elaborar, tenho refletido um pouco mais sobre aquilo a que tantos chamam de “profissões e profissionais do futuro”.

Não há dúvida de que certas atividades que até algum tempo atrás eram exercidas por seres humanos agora são executadas por supermáquinas de revolucionária tecnologia, quando não extintas, uma vez que muitas delas deixaram de ser absolutamente necessárias – e viva os avanços da modernidade! O que me surpreende, no entanto, é a supervalorização dessas “profissões do futuro”, como se o investimento em tantas outras áreas não fosse mais do interesse comum! E, ainda que existam pessoas interessadas em cada vez mais humanizar essa realidade (graças a Deus!), o que mais vemos são inúmeros pais e educadores excessivamente preocupados em formar mão de obra altamente qualificada, devidamente competitiva e suficientemente técnica! No lugar da caixinha de brinquedos, mais uma caixa de ferramentas e de parafernálias recém-lançadas, daquelas ditas indispensáveis.

Quando eu era criança, queria ser professora – com absoluta convicção. Hoje, não conheço uma única criança que manifeste essa aspiração. Será que professor é uma “profissão do passado”, daquelas que o “futuro” já não contempla?!?...

Embora a minha graduação me permita lecionar para os ensinos fundamental e médio, ocorreu que, com o tempo, despertei para duas paixões que se correlacionam, sem as quais eu perderia completamente a minha identidade – a leitura e a escrita. Mas, sobretudo na adolescência, passei por muitas dificuldades, de ordens diversas. Na escola, por exemplo, muitas vezes experimentei a frustração de ser aluna de professores de Língua Portuguesa que eram "tecnicamente incapazes" de exercer a docência de modo "satisfatório", haja vista a insatisfação pessoal que mal eram capazes de disfarçar. Algumas vezes, cheguei a receber notas muito baixas em redações que eu escrevia com entusiasmo, “apenas” porque todos os meus colegas se esforçavam para conseguir elaborar ao menos de 10 a 15 linhas, sendo que as minhas ideias não cabiam neste mesmo espaço e, portanto, a folha de redação que eu entregava ao professor tinha frente e verso registrados.

“— Eu pedi uma redação, Iara, e não um livro! Já pensou se todos aqui resolvem escrever o tanto que você escreve e eu tiver que ler 1 folha inteira de cada um?!?... Contente-se com a sua nota e contenha-se para escrever menos.”

Chegando à idade adulta, entendi um pouco melhor o posicionamento desses professores – conquanto ainda o considere "lamentável", confesso. Os meus pais também não compreendiam muito bem a minha necessidade de ler e de escrever com tamanha frequência, com a diferença de que, no caso deles, até por conta do conhecimento de que dispunham naquela época, a falta de incentivo era bem menos “comprometedora” e mais engraçada. Lá estava eu no meu quarto, imersa numa “superprodução”, com pressa de escrever logo todas as ideias que surgiam, receosa de que pudesse perdê-las, e, de repente, ouvia-se aquele chamado: “Tá na hora de lavar a louçaaa...”. Legal. Só que, precisamente naquela hora, eu não podia! Estava escrevendo, oras! Por acaso lavar a louça era mais importante do que terminar um poema ou uma crônica?!?

...

Claro que era!!! (Ra, ra, ra!) E, para o meu “consolo”, diante daquela minha cara de inconformismo, enquanto andava a passos lentos até a cozinha, onde a mamãe já me aguardava impacientemente, o papai, de algum canto da casa, soltava aquela sua “preciosidade”, capaz de me irritar na adolescência: “Seu avô já dizia, minha filha: primeiro a obrigação, depois a devoção!”.

Levou certo tempo para os meus pais assimilarem que escrever era uma obrigação que, a priori, eu assumira para comigo mesma.

Quanto aos professores a que me referi, não os achava “engraçados”: relevava, e como boa brasileira, voltava a escrever frente e verso na folha da próxima redação. (Não era “teimosia”: era “determinação”, ué!). No fundo, eles estavam preocupados com a minha formação. Ser redator, escritor e/ou revisor de textos certamente não eram as profissões do futuro.

Mal sabiam que ser professor também não era.

Mas e daí?


Dia desses, durante a revisão de alguns artigos para um livro que brevemente será lançado pela Forma Escrita, li sobre a importância da brincadeira. Ansiosos para que a criança adquira conhecimentos que muitas vezes vão além da sua capacidade, desconsiderando o período cognitivo em que ela se encontra, muitos pais e professores substituem o tempo de brincar dos seus filhos e alunos por outras práticas que possam “prepará-los” para a sua futura atividade profissional. Para Chateau, no entanto, o indivíduo bem-sucedido é aquele que brincou muito na infância. Um adulto criativo é aquele que se envolveu com muitas brincadeiras desde pequeno, a começar pelo faz de conta. Ou seja: trata-se de alguém que, paralelamente à caixa de ferramentas, apropriou-se da sua caixinha de brinquedos.


Google Imagens
Não brinquei tanto quanto podia ao longo da minha infância. Todavia, até mesmo por conta dessa análise, cuidei de, já adulta, encher de novos brinquedos a caixinha que sempre carrego. E posso não ter me tornado a profissional reconhecidamente mais bem-sucedida, mas garanto que, sem dúvida alguma, tornei-me uma redatora realizada, cuja profissão me propicia, incessantemente, novos conhecimentos, a oportunidade de dedicar à Educação a minha própria parcela de contribuição, a remuneração financeira que me cabe e, de quebra, não apenas rir, mas também sorrir e me emocionar por diversas vezes.

E a Educação serve para o quê mesmo?...

Iara Mola
Agosto de 2012
*Por ocasião da palestra que realizei na última sexta-feira (8/4/2016) na Faculdade Sumaré, em que abordei o tema "redação", resolvi retomar alguns textos que produzi quando da minha atuação como redatora e revisora de textos da Forma Escrita Projeto Editorial. Aqui, compartilho o primeiro artigo de uma série originalmente publicada no site da Editora, na qual tive a grata satisfação de ter uma coluna própria entre 2012 e 2013.

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